A “cidade-donut”* (a propósito do Porto)

Eu gosto de “donuts”.
 Atrai-me, particularmente, a respectiva forma: o espaço vazio no interior do tubo doce e circular. Trata-se de um bolo que apela a uma certa dinâmica centrífuga, ideal para acompanhar um café matinal, apressado e despertador. Um bolo cuja configuração nos oferece um espaço vazio central. No fundo, esse espaço em branco alivia a carga calórica do “donut” e, simultaneamente, distingue-o de outras especialidades relativamente próximas e concorrentes da pastelaria europeia, como, por exemplo, a bola de Berlim. Apesar de tudo, os “donuts” também fazem mal. Como tudo na vida, os excessos (“donuts” a mais) acabam por ser perigosos (no caso, nomeadamente, para o colesterol).

Esta semana, assistindo a um dos últimos capítulos do folhetim “Centro Materno Infantil do Norte”, lembrei-me dos “donuts”, a propósito do Porto. Talvez a actual Câmara, gostando, também, de “donuts”, pretenda fazer do Porto (do centro do Porto), um gigantesco espaço em branco. O parecer negativo (reiterado) da Câmara ao projecto do CMIN – contra as expectativas noticiadas mais recentemente (ver a última edição do “Grande Porto”) – parece tão inopinado que, necessariamente, remete-nos para outras atitudes do executivo de Rui Rio: convoca-nos, entre outras coisas, para a teimosia que envolveu, da parte da Câmara de então (primeiro mandato de Rui Rio) o “El Córte Inglès” (entretanto, deslocalizado para V.N. Gaia) e recorda-nos o que se passou com o “Fantasporto”. Remete-nos, também, para a birra inicial (ainda com Ricardo Figueiredo como vereador do urbanismo) a propósito do Plano de pormenor da Antas e da construção do estádio do Dragão (assim como da requalificação da zona envolvente). Este caso do CMIN, relembra-nos, sobretudo, o facto de, ao fim de estes anos todos, a cidade do Porto não ter conseguido parar a perda de centralidade e a crescente irrelevância que tem vindo a conhecer ultimamente. Pior, fica-nos a sensação de que o actual executivo camarário (como o anterior e ambos liderados por Rio) decide em função das suas estritas conveniências e interesses político-partidários, em função das suas sensibilidades pessoais, complexos ou preconceitos, não tendo a mais pequena estratégia (que não seja a de uma visão contabilística rasteira) para o Porto e para o interesse das suas populações. No fundo, que não tem grandeza política suficiente para estar à frente do Porto, sobretudo em períodos de crise.

V. N. Gaia e a Maia já se disponibilizaram para acolher o CMIN. Ao menos, já que não temos capacidade para ter um centro que não seja um espaço vazio, valha-nos a circular envolvente!

* Grande Porto (semanário): ed. 17.09.2010

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